CARREIRA
Futuro do trabalho: como IA e soft skills redefinem o valor da carreira
Cerca de 37% das empresas já usam inteligência artificial em algum ponto do recrutamento.
Cerca de 37% das empresas já usam inteligência artificial em algum ponto do recrutamento. A máquina já está do outro lado da mesa antes de você entrar na sala.
A reação automática é o medo da substituição. Mas quando Vanessa Pimentel, Fernanda Sobral e Flávia Camanho sentaram juntas no painel bônus do Tirando o Crachá, o debate tomou uma direção diferente — e mais incômoda. A IA faz bem justo as tarefas que antes formavam o júnior.
O problema não é o sênior perder o emprego. É o degrau de entrada sumir — e, com ele, o caminho que transformava um iniciante em profissional formado.
A IA não está tomando o emprego do sênior — está comendo o degrau do júnior
Existe uma narrativa que domina as discussões sobre futuro do trabalho: os profissionais mais experientes é que estão em risco. Ela está errada. Ou pelo menos, está errada na sequência.
Pense no que um júnior fazia há dez anos. Compilava relatórios. Organizava pesquisas. Rascunhava primeiras versões de apresentações. Revisava planilhas. Era trabalho repetitivo, às vezes tedioso — e era exatamente por isso que formava. A fricção desse trabalho ensinava a ver padrão, a reconhecer inconsistência, a entender o negócio pelo contato direto com os dados brutos.
A IA automatiza boa parte dessas tarefas com eficiência e velocidade que nenhum estagiário vai superar. O resultado é previsível: as empresas precisam de menos mão de obra júnior para produzir o mesmo volume. A porta de entrada está mais estreita.
O que não está sendo discutido com a mesma frequência: o profissional sênior de hoje passou por esse degrau. Ele tem o repertório porque fez o trabalho que formava. O profissional que está tentando entrar agora não vai ter essa chance na mesma medida. Daqui a cinco anos, quem vai ser promovido a gestor numa empresa que nunca precisou de um analista júnior para função operacional?
Vanessa Pimentel — Head of Talent Acquisition que também leciona na Fundação Dom Cabral — foi precisa ao nomear essa tensão no painel sobre futuro do trabalho: não é que o talento sumiu. É que o caminho de formação que a maioria das organizações sempre terceirizou para o próprio trabalho operacional está desaparecendo.
Soft skills deixaram de ser diferencial e viraram pré-requisito
Fernanda Sobral, que lida com estratégia de pessoas na SAP Brasil, foi direta: empatia, curiosidade e pensamento crítico não são mais competências avançadas. São o mínimo para seguir relevante — e a relação entre IA e soft skills na carreira é exatamente essa: a automação não substitui essas competências, ela as torna mais necessárias.
A frase que ela disse no painel e que ficou comigo: "Falar sobre essas competências a gente já faz há bastante tempo. O problema é o quanto a gente pratica."
Essa distinção importa. O mercado sabe nomear soft skills há anos. Os frameworks de competências as listam. As descrições de vaga as pedem. Mas desenvolver — de verdade, pelo exercício — é diferente de reconhecer como importante.
E aqui está a armadilha silenciosa da IA: ela remove a fricção que desenvolvia essas competências por via indireta. O analista que passava horas organizando dados de pesquisa aprendia, nesse processo, a fazer perguntas — sobre inconsistências, sobre o que estava faltando, sobre o que o dado não dizia. Era um treino de pensamento crítico disfarçado de trabalho operacional. Quando a IA assume essa função, o analista produz mais rápido e aprende menos.
Não estou argumentando contra eficiência. Estou argumentando que as empresas vão precisar criar intencionalmente as condições de desenvolvimento que antes surgiam como subproduto do trabalho. Isso não está acontecendo na mesma velocidade que a automação.
Para quem está no começo de carreira: o caminho agora é usar a IA para ganhar velocidade nas tarefas operacionais e investir o tempo liberado em exposição que a IA não reproduz — reuniões difíceis, decisões com informação incompleta, relações com stakeholders que têm objetivos conflitantes. Não é intuição. É uma estratégia deliberada de formação.
Carreira portfólio: o que muda quando ninguém tem mais um único emprego
Fernanda Sobral trouxe um conceito que descreve bem o que está acontecendo estruturalmente: carreira portfólio. Não é multiemprego por necessidade. É a construção deliberada de uma trajetória onde nenhum cargo, empresa ou função define inteiramente o que você é profissionalmente.
Esse modelo já estava emergindo antes da IA. O que a automação acelera é a obsolescência de vínculos de longo prazo com uma única função. Quando uma parte relevante do que você fazia pode ser automatizada, o que sobra para identificar sua contribuição? Se a resposta é só "eu opero a ferramenta que automatizou meu trabalho anterior", o vínculo ficou frágil.
A carreira portfólio responde a isso com uma lógica diferente: o valor não está num cargo específico, mas no conjunto de competências, projetos e perspectivas que você acumulou. É o que Fernanda chama de "ativo que ninguém pode remover com uma reestruturação".
Isso cria uma implicação prática para quem está decidindo entre especialização profunda e diversidade de experiências: a resposta correta depende do seu horizonte. No curto prazo, especialização ainda entrega mais resultado visível. No médio prazo, a capacidade de conectar contextos diferentes é o que vai diferenciar quem lidera de quem opera — especialmente num ambiente onde a operação está sendo progressivamente automatizada.
Tem um artigo aqui no portal que aprofunda exatamente esse ponto: especialista ou gestor — e se a pergunta estiver errada?
Poder no trabalho não é cargo: é conhecimento, rede, mandato e exercício
Flávia Camanho, que acompanha sucessão em empresas familiares e organizações de grande porte pela Dom Cabral, trouxe a contribuição mais estrutural do painel. Ela decompôs o que é poder real dentro de uma organização em quatro elementos:
→ Conhecimento — o que você sabe que os outros precisam saber
→ Rede — quem você acessa e quem acessa você
→ Mandato — a autorização formal para agir
→ Exercício — a disposição e a prática de usar os três anteriores
O ponto que ela fez questão de deixar claro: cargo dá mandato, mas não garante os outros três. E os outros três podem existir sem o cargo.
Isso tem uma leitura direta para o futuro do trabalho: a IA vai mudar o que conta como conhecimento relevante. Parte do conhecimento tácito que profissionais experientes carregavam — como executar certas análises, como formatar determinados relatórios, como navegar ferramentas complexas — vai virar commodity. O conhecimento que vai continuar sendo poder é o que está na interface entre informação e julgamento: saber interpretar, saber quando o dado está errado, saber o que fazer com a análise que a IA produziu.
Rede e exercício são dimensões que a IA não toca. Você constrói rede pelo contato humano, pela troca real, pela presença em situações de pressão ao lado de pessoas que vão te lembrar disso depois. Exercício de liderança — a disposição de agir no limite do mandato, de tomar decisões difíceis sem garantia de resultado — é uma prática que se desenvolve fazendo.
Flávia contou de um episódio numa reunião executiva em que um profissional jovem abriu a chamada em movimento, sem presença. Ela pausou, fez uma pergunta que redirecionou toda a conversa. A cena sintetiza bem o gap: informação estava disponível para os dois. Julgamento sobre o momento, não estava.
O risco que as empresas ainda não mediram
Há uma lógica de curto prazo que é difícil de contestar: automatizar tarefas operacionais reduz custo, aumenta velocidade e libera o sênior para trabalho de maior valor. O resultado trimestral melhora.
O problema é que o sênior de amanhã não aparece por geração espontânea. Ele é o júnior de hoje que vai passar pelos próximos anos desenvolvendo repertório pela fricção com o trabalho. Se esse trajeto foi eliminado, a empresa economizou no curto prazo e criou escassez de liderança no médio.
Isso é o que Vanessa Pimentel chamou de erosão do pipeline. Não é visível imediatamente. Demora de três a cinco anos para aparecer com clareza no desenvolvimento organizacional — quando as posições que precisam ser preenchidas por quem tem repertório formado não encontram o candidato interno que deveria estar pronto.
Algumas empresas já estão respondendo a isso com programas deliberados de desenvolvimento de juniores que substituem a formação que antes vinha pelo trabalho operacional. É mais caro, mais intencional, e ainda raro. A maioria está colhendo a eficiência de curto prazo sem calcular a conta que vem depois.
Para quem está escolhendo onde trabalhar: vale perguntar se a empresa investe explicitamente no desenvolvimento de quem está começando ou se o crescimento é esperado acontecer "naturalmente" pelo trabalho. A segunda resposta, num ambiente com alta automação, é um sinal de alerta.
O futuro do trabalho não é uma crise de emprego. É uma crise de formação que vai se tornar uma crise de liderança — silenciosa, gradual e bem mais difícil de reverter. A pergunta que fica: o que a sua empresa — ou você mesmo — está fazendo hoje para garantir que o profissional que vai liderar daqui a cinco anos teve a chance de aprender o que um cargo de liderança vai exigir?